quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A arte é livre.


INDIANISMO.

Naquele dia, aqui estou.
No azedo do pirão,
no assado da "Espera"
e na gnose de quem provou.
Pela batida do chocalho,
singelas crianças
e o harmônico ecoar
em ásperos lábios.
Passei entre sorrisos
desdentados, toquei
em palmas grosseiras
que as dermes escamavam.
Entre capins silvestres
e o grumo fluído da terra,
me fiz arpão a necessidade
para pesca. Como todos
os rostos suados
no eflúvio das águas,
lacrimejei-me um pouco 
no oco da cabaça.
Naquele dia aqui restou,
o rastro dos meus pés
descalços, a solução
nas mãos em declive
pelos dedos, e as aquarelas
primárias dos meus segredos.

(Denis Soares).

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A arte é livre.


METAMORFOSE.

Eu observei um triste ser,
minha alma tocou ao chão,
logo tentei me erguer
e eu virei um grão.
Surgiu um imenso arco
com mórbidas e indefinidas 
cores. Bem atrás inúmeras 
lágrimas e os raios brilhavam 
rancores. Senti o toque frio 
dos ventos, trazendo-me 
mensagens, disse lamentos 
da própria imagem.
Agora sobrevivo entre mortas 
raízes e sinto o mínimo que 
sou. Vejo extinção do natural
no pouco lugar que restou.
O sumiço do rei animal,
abundantes queimadas,
guerra, fome e devastação
por pragas. Quanta pandemia.
No corpo ainda dores da 
escravatura e doenças sem 
curas. Mesmo sendo grão
incontável ou nada.
Lembrei do meu minúsculo
e amigo coração, que brotou 
o acontecer. Aquela amargura 
nos molhou, e os pássaros 
não paravam o canto do nascer. 
Protegido pelo meu mineral, 
amadureceu uma linda árvore, 
forte e cheia de fertilidade. 
O meu retorno sucedeu e ela 
garantiu o ritual. Florestou o 
lugar sem maldade e trouxe 
de volta o rei animal.

(Denis Soares).

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A arte é livre.


INGRATIDÃO.

Você é um sábio macabro 
que busca sabedorias,
pensa que está certo,
duvido de suas fantasias.
Eu sou a cura das matas,
o seu breve retorno, 
a hidratação pelas águas
e você o meu aborto.
Estou em prantos de lágrimas
por perder este filho vivo,
que observa distúrbios e causas,
mas, não quer ser meu amigo.
Seu sentido é só destruição 
que se move por palavras,
não amamento discriminação,
sou todas as raças!
Meu amor está em todo lugar,
no voar dos pássaros 
e na hora do sol raiar.
Nas sementes dos frutos
como a simples solidão estrelar.
Sou seu corpo e alma.
Sou Terra pra ser amada.

(Denis Soares).

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A arte é livre.


SEPULCRO.


Os meus olhos se abrem,
e apenas vejo a escuridão 
surgindo, na ótica dos 
alucinados assistindo 
em lugares onde ocorrem 
fatos notados de farrapos 
mendigos.
Escuto gritos de tréguas,
mas, só sinto o vestígio 
da morte me perseguindo.
Entrego-me a cruel aflição,
por habitar seres racionais 
que impõem o poder de me 
envenenar com malefícios.
Malefícios que saciam sua 
sede, exterminando a 
vegetação que mantem rica 
a oxigenação.
A cultura tem criatividade do 
ser e dever, mas, a cada 
minuto que passa tento vencer. 
Esse ser desordeiro, 
aproveitador do meu pensar 
existente, estimulando
motivos insípidos e insolentes.
Explora de mim substâncias 
que o deixa doente, procria 
a fome, afeta a irmandade 
com a pobreza.
Mas, de que seria a riqueza 
se não houvesse a natureza?
Será que é essa a vontade 
de posse, desgraçado?
Está realizado, estou vivo 
e sepultado!

(Denis Soares).